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A Guerra das Letras

Intermitências

Ainda não morri e já dou voltas no túmulo

Viro-me para um lado, para o outro e… vazio.

Continuo a sentar-me diariamente no mesmo sítio

Um sítio de nada, um sítio de sempre

Onde perdemos a vida para matar a fome

Sem sonhos no inverno, nem sombras no verão

Regurgitando mal o verso disruptivo.

 

Nem uma lágrima ao ler Camões,

Nem depressões ao ler Pessoa

Nem saudades de mim quando era um Atlas

Sustentando meu próprio mundo íntimo;

Os meus olhos são dois velhos muito amigos

Gostam de comer gelados por irreverência

Saudosos dos tempos de nómadas leões

À caça de metáforas e versos insubmissos.

 

Onde está o rio Tejo que daqui não o vejo?

E o eléctrico surgindo nas ruas como um cisne

E a voz do cauteleiro, sonante, de invejável

Coragem, que anuncia o corpo da fortuna

E o desmanchar de puzzles num domingo à tarde

Com meus pais por perto, tricotando o tempo

E a minha roupa suja cheia de lama,

Esverdeada camisola de seda branca

Do Real Madrid, que um primo meu me trouxe,

Há anos que apertam o peito de contá-los…

 

E agora isto, que é só isto, “and nothing more”

Esperança

Começava assim, o redemoinhar das folhas

Antes da tempestade, um silêncio de sinfonia

De Tchaikovsky, no início, dilatando, lento, ágil

respirando fundo como mar que o vento agita.

 Iniciaste o pranto, meu peito estremecia

por qualquer pedido de desculpa que viesse

deixar luzidios espelhos sujos de palavras sujas

E deixar o ar perfumado de jasmim.

 Pouco importa o que disse no passado,

Dou por mim a enlouquecer, enredado

Na teia dum louco solilóquio prolongado

Com que venho a atravessar a rua.

 Quase fui atropelado por quem com pressa vinha

Deve ser assim a Morte, ansiosa e estúpida,

Mas repara como reparo que o teu rosto

De lírio do vale, sem mão que te macule

Enrugou-se, lentamente, a contorcer-se

De raiva por mim, e compaixão por ti.

 Eu que não quero mais que a vida quero agora

Ter dons alquímicos na ponta dos dedos

Para tocar teu rosto, assinar um cessar-fogo

E não ir pela goela abaixo do escuro abismo.

 Tão difícil, ó inocente, provares tua inocência

A calúnia é vil e chega longe. Assim nasceu

A palavra esperança, eu te saúdo, ó pioneiro

E isto sim, ó Prometeu, arde a valer como o fogo 

Esperança!

Um novo Deus

O meu filho perguntou-me se Deus existia

E no meio dum ponto de exclamação contrariava

No fundo, todos os teólogos que enlouqueceram

A tentar explicar ao mundo o que era Deus. Deus

Para ele era um espírito, não aparecia nos noticiários

Da televisão carnívora de boca ensanguentada

Nos debates temáticos e documentários do que cria

Do que sabe, mas não diz a ninguém, como velhas à janela

Desesperadas, à espera do regresso ao lar dos filhos.

Daqueles lábios inocentes, daquele coração puro

Naquela inocência que o tempo degenera

Explicou, como um desenho geométrico

Em papel milimétrico, o melhor que Deus tem

Que é não aparecer em debates televisivos

Que é estar em espírito no coração dos homens

E fundou, como D.H. Lawrence, a sua própria religião

Que seguirei fiel, porque nele creio.

Sono

Tenho sono, muito sono.

Precisava tomar dois Tolstoi

E cobrir-me com um manto de palavras

 

alguém me decifre o cântico dos pássaros

Os versos dos cedros, a folhagem dos poemas

Os sorrisos doces e púrpuras das romãs

as promessas das cerejas

Pois sinto que nada é para mim e tudo é para Deus

 

Não sei vivier porque não sou para sempre

Nem estar porque um dia terei de ir

 

 

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