Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Guerra das Letras

Aborrecimentos

Aborrecem-me as conversas de café

os encontros causais de amigos nas ruas

sobre aplicações novas e seguros baratos

dos livros que leram e nunca os leram

dos filmes que viram sem os terem visto

(a lâmpada fundida no génio que não tive

sem ser melhor ou pior de não ter sido

uma promessa iguala uma criança)

Aborrece-me a rapariga

que impede risos e conversas

e fuma cigarros por talento

enviada de Morfeus de subtis encantos.

Até as pessoas aborrecidas aborrecem-me

sem rasgos espontâneos, sem uma nesga de mar

cheias de tédio de morte e sucesso

de suores frios coroados de louro

Em tudo. se ao menos falassem

De erradas filosofias íntimas na vida

escutaria suavíssimo

com ávido interesse de quem sobrevive a saber

mas chega-me um aborrecimento de morte

dos poemas antigos com inúmeras regras

dos poemas modernos com ausência de regras,

das palavras difíceis, das palavras simples

nada faz sentido, quero ou escrevo

molho só o pão da alma

no leite que é a escrita

Dois pontos

I

 

Continuemos com nossos dedos de conversa

como líquenes verdes aquecidos ao sol

nas pedras graníticas, nos gritos interiores

nas duas gemas de ovo róseas dos teus seios

 

meu amor poético, duma vida sem rigores

cidade hospitaleira dum país em guerra, fervo

dentro férvidos licores abundantes

numa árvore tesa a transbordar de seiva

 

no maior início, da palavra amor, é o rosto

dum pânico qualquer que em breve tudo acabe

 

II

 

Põe de lado agora as rimas várias. Bem sei

das dualidades obsessivas que a vida exige

dois braços, duas pernas, duas coxas,

dois olhos, dois lábios, duas nádegas

 

dois seios também, que eu nada olvido. Beijo

dois beijos de crepúsculo no conforto morno

duas almas em labirínticos prazeres,

dois corpos conectados que sobrevivem

 

voltámos aos tempos Grécia antiga. Vem fazer

constelações na pele com nossos dedos musicais

que tudo é escravidão, mas escolho ser

fiel ao amor ao qual me sinto cativo

O poema dentro de ti

Foi na altura das férias

dos meus sonhos que decidi

enviar-te por telepatia palavras

que chegassem perto

dum ninho íntimo morno

que comprometessem

linguisticamente

dentro de ti

 

nos dias seguintes

foi um espantar de abutres

pelo ar que andavam

à volta da hiena esfomeada

a vida a transformar-se

em algo mole insípido amorfo

como se houvesse na noite

um mordomo do tempo vestido

de paquete de hotel que

encravasse a roda gigante de fogo

que há

dentro de ti

 

afinal eu queria mais

utopicamente

crença de ser possível aprisionar

um arco íris em Setembro

e fossemos directos ao fundo

os dois juntos

junto a um escolho

de caríbdis salgada

no meio da espuma

húmida que há

dentro de ti

corridas

Que é de mim,

De mim a correr e acabar em vigésimo

Na corrida, onde minha irmã chorava de cansaço

E quase perdeu os sentidos, muito pequena?

 

Que é de mim e dos outros

Daquele carro de corrida oferecido nos anos

Que adoeci, e meus pais me sorriam, quando era

O centro de uma vida fácil , mesmo difícil

 

que é de mim? que é de mim?

passei por lá, ninguém corria, 

além de mim

omnipresença

Puseram-nos vícios na carne e vendas nos olhos

a morte é omnipresente. Aqueles ciprestes

dão sombra e sossego melhores que eu, choram

todas os silêncios dos homens. Seguirei

 

como querendo dobrar palavras amarrotadas

os passos incertos de poemas que gritam

nos corações fechados dos homens e mulheres

nas crianças que despertarão a meio da noite

 

recuso-me dormir mais. Eis tudo, a insónia

é uma amiga minha antiga que se sentava

no parapeito da janela da minha infância

 

cantava-me fábulas antigas e contos obscuros

sombras esparsas, e céus purpurinos

porque no meu peito habitava a curiosidade

De que vale os versos e a melancolia?

O pavor de existir sem ter existido

O ser vencido pelo medo em batalha

O removermos o ser para sobrevivermos

Como cisnes se esgueirando dos olhos do mundo;

O molhar de lábios, que desconhecemos

Ser veneno na falta das exactas palavras

O misturar dos gestos, a cobardia

Nos rostos mudos nas ruas de cinza.

 

O cansaço imediato nas manhãs de Outono

O langor do violino nas horas prateadas

O céu recorrente, igual, imperecível

Assim os deuses troçam e riem dos homens

O azul da batina ou avental das nuvens

A noite que nos aguarda, negra de fuligem

De irremediável pranto, da solitária viúva

De uma Lua triste, que se ergue divina

 

O rosto da miséria que nos dói olhar

De frente, que nos lembra a Morte, o túmulo

De dias desperdiçados a sorrir sem querer

Nos voos em espirais da imaginação.

Uma gota de tinta derramada, lenta

Essa noite que se aproxima e nos reclama o fim,

O sonho amordaçado, o carregado cenho

Da vontade urgente de reanimar a infância.

 

O ruído líquido dos carros quando passam,

O ruído grotesco das fábricas que não param,

A bailado leve e suave das cortinas

Nos dias de cristais quebrados no silêncio.

Rolarão as horas, os dias, os meses

Os anos vindouros serão de maior culpa

E tudo é um mistério de tentáculos e abismos

 

De que vale os versos e a melancolia?

Intermitências

Ainda não morri e já dou voltas no túmulo

Viro-me para um lado, para o outro e… vazio.

Continuo a sentar-me diariamente no mesmo sítio

Um sítio de nada, um sítio de sempre

Onde perdemos a vida para matar a fome

Sem sonhos no inverno, nem sombras no verão

Regurgitando mal o verso disruptivo.

 

Nem uma lágrima ao ler Camões,

Nem depressões ao ler Pessoa

Nem saudades de mim quando era um Atlas

Sustentando meu próprio mundo íntimo;

Os meus olhos são dois velhos muito amigos

Gostam de comer gelados por irreverência

Saudosos dos tempos de nómadas leões

À caça de metáforas e versos insubmissos.

 

Onde está o rio Tejo que daqui não o vejo?

E o eléctrico surgindo nas ruas como um cisne

E a voz do cauteleiro, sonante, de invejável

Coragem, que anuncia o corpo da fortuna

E o desmanchar de puzzles num domingo à tarde

Com meus pais por perto, tricotando o tempo

E a minha roupa suja cheia de lama,

Esverdeada camisola de seda branca

Do Real Madrid, que um primo meu me trouxe,

Há anos que apertam o peito de contá-los…

 

E agora isto, que é só isto, “and nothing more”

Esperança

Começava assim, o redemoinhar das folhas

Antes da tempestade, um silêncio de sinfonia

De Tchaikovsky, no início, dilatando, lento, ágil

respirando fundo como mar que o vento agita.

 Iniciaste o pranto, meu peito estremecia

por qualquer pedido de desculpa que viesse

deixar luzidios espelhos sujos de palavras sujas

E deixar o ar perfumado de jasmim.

 Pouco importa o que disse no passado,

Dou por mim a enlouquecer, enredado

Na teia dum louco solilóquio prolongado

Com que venho a atravessar a rua.

 Quase fui atropelado por quem com pressa vinha

Deve ser assim a Morte, ansiosa e estúpida,

Mas repara como reparo que o teu rosto

De lírio do vale, sem mão que te macule

Enrugou-se, lentamente, a contorcer-se

De raiva por mim, e compaixão por ti.

 Eu que não quero mais que a vida quero agora

Ter dons alquímicos na ponta dos dedos

Para tocar teu rosto, assinar um cessar-fogo

E não ir pela goela abaixo do escuro abismo.

 Tão difícil, ó inocente, provares tua inocência

A calúnia é vil e chega longe. Assim nasceu

A palavra esperança, eu te saúdo, ó pioneiro

E isto sim, ó Prometeu, arde a valer como o fogo 

Esperança!

Um novo Deus

O meu filho perguntou-me se Deus existia

E no meio dum ponto de exclamação contrariava

No fundo, todos os teólogos que enlouqueceram

A tentar explicar ao mundo o que era Deus. Deus

Para ele era um espírito, não aparecia nos noticiários

Da televisão carnívora de boca ensanguentada

Nos debates temáticos e documentários do que cria

Do que sabe, mas não diz a ninguém, como velhas à janela

Desesperadas, à espera do regresso ao lar dos filhos.

Daqueles lábios inocentes, daquele coração puro

Naquela inocência que o tempo degenera

Explicou, como um desenho geométrico

Em papel milimétrico, o melhor que Deus tem

Que é não aparecer em debates televisivos

Que é estar em espírito no coração dos homens

E fundou, como D.H. Lawrence, a sua própria religião

Que seguirei fiel, porque nele creio.

Sono

Tenho sono, muito sono.

Precisava tomar dois Tolstoi

E cobrir-me com um manto de palavras

 

alguém me decifre o cântico dos pássaros

Os versos dos cedros, a folhagem dos poemas

Os sorrisos doces e púrpuras das romãs

as promessas das cerejas

Pois sinto que nada é para mim e tudo é para Deus

 

Não sei vivier porque não sou para sempre

Nem estar porque um dia terei de ir

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D